domingo, 11 de novembro de 2012

A propriocepção e a desastritude

Não, não sou desastrada. Nem distraída. Simplesmente, não funciono - ou melhor, o meu cérebro - da mesma forma que a maioria das pessoas. Quando me viro numa loja ou outro ambiente normalmente mobilado ou decorado, certamente que ou tropeço num dos expositores, ou o deito abaixo caso o mesmo não se encontre bem fixo! Se estou a subir ou descer uma escada não posso tirar os olhinhos dos degraus, senão catrapum galgo-os a todos de uma vez só... carregar volumes que impeçam ou diminuam a visibilidade então... Nem imaginam como é difícil controlar o espaço circundante em relação às pessoas que me rodeiam, sobretudo se carregar sacos, malas ou outros tipos de volumes... nem consigo avançar nem circular sem que me assegurem antecipadamente uma boa dose de área circundante; caso contrário, certinho e sabido, lá vou eu de encontro ao mais próximo, seja pessoa, objecto ou volume, e isso se antes mesmo me não desequilibrar nos próprios pés! Por falar nisso, e uma vez que o meu cérebro não faz a mínima ideia de qual a distância correta até ao chão, nem se apercebe completamente da textura do mesmo - nem sei muito bem o que é isso de superfícies lisas, pois são todas um pouco convexas para mim, ou côncavas... - tropeçar nos próprios pés, para mim, não é uma expressão literal, é mesmo real. Irra, e cada tropeção por vezes! Não sou desastrada, insisto, nem desequilibrada. Ah sim, pareço-vos estranha, e rotulam-me como tal, eu compreendo! Mas acreditam o quanto estou cansada??? É que não acreditam como é cansativo viver diariamente assim, nesta confusão espacial, nesta dificuldade postural perante o mundo normal, cheio de obstáculos e desafios, e ainda ter que encarar os vossos olhares de comiseração -«lá está a patetinha a fazer figuras tristes outra vez!» - de incompreensão - «mas esta gaja é chanfrada ou quê???» - de saturação - «arre mas outra vez????» - e por aí fora... Dos que nos estão mais próximo, vivendo connosco no dia a dia e que continuam a não fazer ideia e a não ter capacidade para prevenir em vez de provocar... Precisei de muita coragem para hoje vir aqui partilhar este texto, este desabafo, na esperança de que alguns possam começar a aperceber-se desta realidade diferente, por um lado; e na de que outros como eu (tenho a certeza de que os há, muitos sem saberem o que têm, desconhecendo a sua própria situação) possam reconhecer-se e saber que não estão sós. Pessoas como eu - como nós - têm uma síndrome do sistema proprioceptivo. Poderão procurar alguma informação sobre isso na wikipédia nesse link, sendo fundamental esse artigo para ajudar a perceber de forma simples o problema. A dislexia e as deficiências posturais são formas de expressão mais conhecidas dessa sindrome. Mas as dificuldades que ela coloca no dia a dia e que se revelam naquelas coisinhas diárias como subir escadas, desequilibrar-se (basta virar a cabeça e zás!... depois tem que esperar pelo alinhamento, sem cair entretanto!)tropeçar ou bater em objetos...tornam-se por vezes inultrapassáveis em termos de aptidões sociais que resultam afetadas ou diminuídas. Repito: não sou desastrada, nem distraída; eu simplesmente não sei calcular a minha localização espacial, nem bem qual o volume ocupado pelo meu corpo. Da mesma forma, só consigo concentrar-me em uma coisa de cada vez. Literalmente. O multitasking não é para mim, nem sequer uma conversa inocente enquanto estou concentrada em qualquer atividade básica. De imediato, tudo cai das mãos, tudo sai do sítio, e também apanho cada susto sempre que me interpelam de repente ou surjam do nada. O que eu mais queria era que entendessem, respeitassem a diferença e, de uma vez por todas, parassem de olhar para mim como a desastrada, a tontinha, a exuberante... pode ser?

1 comentário:

Unknown disse...

Oki, a minha lerdice habitual não me permitiu inserir devidamente os links que refiro lá no meio do post (bem mais extenso do que eu pensava, desculpem!) Vou tentar linkar aqui depois,sem maçar muito mais! :)