quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Interrupção

Chovera. O piso molhado guardava essa ameaça de sombras e cinzentos, mas a vontade de ver o mar e beber a luz foi mais forte.
Na esplanada, as cadeiras secavam e as nuvens deslizaram, rasgando-se com delicadeza.
O sol afagou-nos e o oceano brilhou.
O calor do capuccino aqueceu os meus dedos que seguravam a chávena enquanto provava as natas e enterrava o pau de canela.

É nesta altura e neste tempo que prefiro a Fortaleza. Encharcada, vigiando o areal da Praia de um lado e a vaidade da Marina do outro, solitária e sólida, palco do brilho dourado e da imensidão do oceano, num convite dirigido em silêncio apenas à alma, mas tão ensurdecedor quanto um temporal.

E nesse bocadinho de tarde o Sol ficou ali connosco, dourando-nos e secando as cadeiras e a esplanada, acariciando os gatos.

Quando partimos, a chuva voltou.

Eu volto sempre aqui. De vez em quando, para simplesmente me sentar e beber o dito capuccino ou um chocolate quente, ao lado do canhão enferrujado, partilhando sorrisos com os estrangeiros maravilhados, e simplesmente decorar cada bocadinho de cor, cada grão de costa, encher a minha alma de silêncio e mar, e depois regressar à cidade um pouco mais feliz, mais serena e mais quente.


Em dias limpos, nada melhor do que deixar os cães correrem livres na areia, nas ondas, antes que chegue o Verão e com ele a invasão e as proibições e regulamentos...

Deixar o sol e o vento brincarem nos cabelos da Viki enquanto ela se maravilha com a areia a escorrer por entre os seus dedos e solta gargalhadas.

Estou em casa, mesmo que nada tenha.

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